
Agradecimentos:

A exposição individual de Martinho Mendes, associa-se ao núcleo temático lançado para o conjunto de actividades da Galeria ASVS enquadradas no conceito de 'Identidade e Lugar'.
Martinho Mendes apresenta um conjunto de trabalhos onde valoriza e problematiza o próprio conceito de identidade e lugar, partindo de elementos ligados à sua memória colectiva e individual, que retira ou herda do espaço geográfico onde nasceu - a Ilha da Madeira. À maneira de uma grande colagem, juntam-se e justapõem-se referências várias ao espaço insular: o património construído com elementos da arquitectura local ou tradicional, como as casinhas de Santana e de prazer; as suas vivências familiares; algumas actividades económicas locais, com a apresentação dos riscos de bordado Madeira ou antigos registos do rol de mercearia do seu avó...
Em 'As nossas memórias nos mentem', o familiar torna-se estranho e propositadamente inusitado, num procedimento de recombinação, descontextualização, ironia e algum sarcasmo.
Martinho Mendes nasceu em 1981 na ilha da Madeira. Frequenta o mestrado de Educação Artística na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa desde 2008. É Licenciado em Artes Plásticas – Ramo de Ensino, pelo Departamento de Arte e Design da Universidade da Madeira. É professor de Artes Visuais exercendo actualmente a função de coordenador de serviço educativo e mediação, no Museu de Arte Sacra do Funchal. Participa em exposições colectivas desde 1999 ao nível do contexto regional, nacional e internacional. Em 2006, no Funchal, realizou a sua primeira exposição individual intitulada " A casa na encruzilhada". Foi distinguido com prémios do domínio da fotografia e pintura, nomeadamente no 1º Concurso Nacional de Fotografia da Póvoa do Varzim (2003) e Concurso de Artes Plásticas promovido pela loja do cidadão (2006) no Funchal.
O DESENHO
EM RESERVA
Em 1881, durante a sua permanência em Paris, Henrique Pousão realizou uma academia de um modelo negro sentado, que deixou incompleta. O desenho que hoje vemos na colecção da FBAUP parece mergulhar-nos no carácter privado das fases da sua realização: a cabeça e o torso perfeitamente modelados em carvão com o esfuminho, enquanto as pernas quase não existem, a não ser pela breve anotação dos contornos que foram espanejados para retirar o carvão em excesso, à espera da imagem prevista.
A imposição da folha de papel e a força cromática do branco, em oposição ao traço negro do desenho, cria o efeito visual de uma ausência relativa, marcada pela recordação ou pela expectativa. A este espaço de inacabamento e antecipação, que parece marcar a própria natureza do desenho, chama-se reserva.
Como outros termos que usamos para nomear o desenho — arrependimento, por exemplo — também este é um termo confiscado de um contexto normativo. Reserva, na acepção jurídica da palavra, significa "pôr à parte num contrato um direito que não se quer exercer de imediato, mas que pode ser reivindicado mais tarde". No desenho, a reserva identifica a manipulação deliberada dos espaços vazios da imagem, adiando para mais tarde o seu preenchimento e a sua conclusão; é a suspensão de um gesto que conserva o espaço para eventuais alterações.
Para além da acepção mais pragmática que pode ter — evidente, por exemplo, nas práticas da gravura e da estampagem — a reserva é também um modo de expressão. As imagens e os espaços mudos da reserva traduzem a vontade deliberada de não terminar; mas são também as estratégias de uma retórica visual que, mediante a elipse da imagem, permitem que as coisas estejam sem estar, sejam ditas sem ser pronunciadas, se mostrem sem ser mostradas.
Esta exposição, inserida nas comemorações dos 150 anos do nascimento de Henrique Pousão, propõe um percurso interrogativo sobre as definições, apropriações e usos da reserva nas práticas contemporâneas do desenho. Organizada a partir de trabalhos desenvolvidos durante as últimas edições dos mestrados de desenho da FBAUP, «Desenho em reserva» apresenta-se no duplo propósito que esteve na sua origem: por um lado, explorar o campo semântico da reserva no exercício expandido do desenho, uma exploração eminentemente prática, informada pelo percurso artístico de cada autor, e cujos resultados se comunicam enquanto objecto visual; por outro lado, propor uma reflexão aberta e consequente sobre a convergência e os conflitos entre a prática artística e os espaços da investigação.
Paulo Luís Almeida


