13.3.12

Gente com luz própria, sobre a pintura de Isabel Lhano


Gente com luz própria, 
sobre a pintura de Isabel Lhano
Valter Hugo Mãe

Já sabíamos que Isabel Lhano é uma das mais exímias artistas do novo realismo português, dotada de uma capacidade técnica invulgar. Agora, notamos essencialmente a pesquisa que vem fazendo em torno da cor.
Depois de uma espantosa e extensa colecção de retratos, a pintora regressa ao gosto do corpo, visto sempre a partir da relação com o outro, marcado pela escolha de uma só cor por cada quadro. A monocromia ágil por que opta é essencialmente vibrante, e abrilhanta-se por nunca perigar aquele efeito volumétrico do qual sempre conseguiu dotar as suas figuras. De facto, estar perante as figuras de Isabel Lhano é convocar, na mais elementar essência da pintura, a escultura, por ser tão eficaz o jogo de luz que confere volume ao que se vê. Trabalhando apenas a uma cor, o esforço tem de ser redobrado no cuidado colocado com a luz, sendo importante o sucesso de todo um degradé pacientemente construído para cada nuance da representação.
As cores de Isabel Lhano são encantatórias e buscam perpassar por estados de espírito sempre aludindo à miríade de emoções que estão em causa numa relação, sobretudo amorosa. A cada quadro atribui uma cor como se lhe vaticinasse um destino, imprimindo um estigma que, antes ainda de ser aferido pela situação representada, é induzido pela questão cromática. Passa-se como se criasse dois planos diferentes de interpretação perfeitamente distintos e que só depois se ligam; não correspondendo a cor usada à natural, a intervenção no momento da opção acarreta toda uma codificação que, numa primeira instância, sugere ao espectador as primeiras ilações; após essa visão inicial, sem dúvida imediata, num segundo plano, estará a própria situação retratada, que corroborará mais ou menos a impressão causada pela cor que ostenta.
A cor, na verdade, neste trabalho pode ser vista como um tema, um assunto específico que estará subjacente à tensão do quadro. Quer nos identifiquemos mais ou menos com a simbiose entre a cor/tema e a situação retratada, o que Isabel Lhano faz é uma imposição que nos obriga, a todo o custo, a filtrar a imagem a partir de um determinado prisma. A cor, neste sentido, é um enfoque, um modo de olhar, como nos impondo uma leitura determinada por mais que, pela natureza individual de cada espectador, outras leituras se fizessem, ou se façam, ainda assim. Esta relação entre a imposição de um estado de espírito, como algo prévio, e a interpretação da narrativa em causa na tela, é muito interessante por tudo quanto tem de subjectivo. A cor pode, em última análise, ser menosprezada e encarada como algo meramente estético, quase decorativo, como pode servir para problematizar as situações e, neste aspecto, cada espectador travará um maior ou menor combate para fazer corresponder as suas impressões dentro daquele estigma fundamental.
Num outro sentido, o trabalho de Isabel Lhano assenta nesse domínio perspicaz da luz, transformando as suas figuras, à força de uma só cor, em seres com uma espantosa luz própria. Muitas vezes optando por tons apelativos, quase fosforescentes, a pintora parece procurar a individualidade máxima de cada tela, fazendo com que, versando todas sobre a questão amorosa e suas bonanças ou crises, se autonomizem acentuadamente, não permitindo que se confundam, por mais que, ao nível da situação representada, se possam sintonizar. Nesta esteira, Isabel Lhano terá aqui uma panóplia de propostas que proporcionam ambiências distintas e até antagónicas, da mais sóbria e discreta tonalidade, à mais gritante ou mesmo kitsch. Essa evidência transforma a exposição num percurso por modos de estar com os outros completamente diversos, que se equivalem a modos de fazer arte completamente diversos também. Assim, uma mesma proposta artística, claramente identificada e amadurecida, pode resultar em telas de atitude muito diferente pela simples razão de se utilizarem cores diferentes.
Com mais de vinte anos de carreira, a arte de Isabel Lhano surge agora depurada e consciente de si mesma. Muito firme nos seus intentos, mais uma vez procura o belo como meio de evidenciar a sua ideia particular do humano. O homem, para a pintora, é sobretudo fonte benigna, pelo que é compreensível que nos deleitemos com os seus trabalhos no sentido mais elementar do termo e que perante nós estes pareçam ostentar gente com luz própria, gente saliente, tangente quase, pelo milagre e perícia da luz.

5.3.12

EXPOSIÇÃO | ISABEL DE ANDRADE

Isabel de Andrade expõe escultura em papel maché na Galeria ASVS com extensão ao Restaurante Artemísia. A exposição com o título 'Encontro' abre ao público Segunda-Feira, 5 de Março e estará patente até ao dia 30 de Maio.