17.10.09

ESCRITOS | AS NOSSAS MEMÓRIAS NOS MENTEM



Conhecemos o trabalho do Martinho Mendes a partir de uma colecção privada que vimos no Porto. O trabalho explorava aspectos regionais, específicos da cultura madeirense, numa abordagem paradigmática que nos captou a atenção. Se por um lado há um manifesto carinho pelo artesanato e pela cultura vernacular madeirense através da introdução de elementos associados às suas memórias (a delicadeza dos desenhos dos bordados, os registos do rol de mercearia do seu avô…), por outro, Martinho Mendes, constrói uma espécie de narrativa inconformista no uso acutilante da iconografia da ilha (as casas de Santana, as casinhas de prazer, etc…). A nostalgia de uma Madeira que já não existe e que é exposta a partir das memórias do artista mistura-se com o olhar atento e consciente, numa espécie de paródia crítica, através do recurso a elementos iconográficos tidos como intocáveis, basilares na comunicação de uma identidade colectiva madeirense.
Martinho Mendes questiona a ‘pérola do atlântico’ como um continental questionaria ‘o cantinho à beira mar plantado’. A problemática regional em ‘As nossas memórias nos mentem’ (título da exposição patente na Galeria ASVS) é representativa e manifestamente nacional – um país com um pé no passado e outro no futuro, cujos preconceitos que gerou em torno de si próprio e da sua identidade o impossibilitam de comunicar com sucesso e afirmação num panorama internacional cada vez mais competitivo e exigente.

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